instântaneos internos

espaço para registrar os instântaneos do olhar...

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Especialmente para você...

Logo que acordei, pensei em você.
Foi um pensamento leve.
Quase perene.
Tudo de um jeito tão diferente...
Sinto uma proximidade
Um calor latente...
Como se algo muito poderoso estivesse tampado
Ou interrompido...
Para onde eu grito??
Só sinto teu olhar rente...
Como se eu fosse sempre para vc...
e vc sempre para mim...
Romantismo latente...
Vontade de dormir abraçada com vc...
No calor e no frio...
Contra a parede...
Me aperta e me tira do abismo...
Talvez vc possa me dar a corrente...
Me abraçar de encontro ao mundo,
e tudo acabe assim...
nós juntos...
num quase repente...

Terça-feira, Junho 23, 2009

O amor, quando se revela... por Fernando Pessoa

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente.
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Terça-feira, Abril 07, 2009

Hoje

Aqui de novo...
Mas de jeito diferente.
Ver a brisa e o mar
Só de rente.

Olhar para você
Nem quero
Só quero sentir
O hálito do teu mistério

Inverno de sensação
Primavera do sentimento
Cada estação traz a cor
A pele rasga por dentro

Sangue jorra
Dor súbita
Atropelamento da hora
Vida múltipla

Segunda-feira, Março 23, 2009

Prato do dia

Preparei a festa pro teu olhar. Deixei o coração em casa pra você ir buscar. Quis te conhecer antes do jantar. Cheguei atrasada, como quase sempre acontece. Continuo a acreditar que a pulsação do meu corpo só se aconchega com o teu tempero. Salada de batatas. E o teu corpo.
Inteiro.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Entre estações

aqui vamos
como quem não vê
quase como quem
quer rever

vem
me chama
se alegra
e desespera

me tira daqui
me espera...
sai para onde
primavera...

entra no verão
dorme no outono
tira o inverno...
se esmera...

Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

Receita de Ano Novo por Carlos Drumond de Andrade

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um anonão apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,você, meu caro,
tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Niketche

"Preciso de um espaço para repousar o meu ser. Preciso de um pedaço de terra. Mas onde está minha terra? Na terra do meu marido? Não, não sou de lá. Ele diz-me que não sou de lá, e se os espíritos da sua família não me quiserem lá, pode expulsar-me de lá. O meu cordão umbilical foi enterrado na terra onde nasci, mas a tradição também diz que não de lá. Na terra do meu marido sou estrangeira. Na terra dos meus pais sou passageira. Não sou de lugar nenhum. Não tenho registro, no mapa da vida não tenho nome. Uso este nome de casada que me pode ser retirado a qualquer momento. Por empréstimo. Usei o nome paterno, que me foi retirado. Era empréstimo. A minha alma é a minha morada. Mas onde vive a minha alma? Uma mulher sozinha é um grão de poeira no espaço, que o vento varre para cá e para lá, na purificação do mundo. Uma sombra, sem sol, nem solo, nem nome" (Nicketche - Uma história de poligamia - Paulina Chiziane)